O professor de Filosofia da Universidade de Notre-Dame, Tom Morris, num artigo publicado pela revista VOCÊ S/A de agosto de 2000, diz que “se você quer estar preparado para o futuro, é preciso aprender com o passado, pois é lá que estão as mais profundas verdades da natureza humana”. E diz mais “existe muita sabedoria para o futuro dos negócios nas obras dos grandes filósofos, sabedoria a que precisamos prestar atenção e incorporar, se quisermos que o futuro seja o melhor possível” (VOCÊ S/A, p. 55). E é lá no passado, que vamos buscar o arranque necessário para iniciarmos nossos primeiros ‘gatinhos’ na reflexão filosófica.
O Jardim de Epicuro
Epicuro, nascido em 341 a.C. na ilha grega de Samos, teve sua iniciação filosófica dos 14 aos 18 anos na academia de Pânfilo que foi discípulo de Platão. Depois, em 323, por motivos de treinamento militar obrigatório, parte para Atenas, a grande capital cultural da Grécia, onde aproveita para freqüentar a convivência de grandes filósofos da época, seguidores de Sócrates, Platão e Aristóteles.
Entre 311 e 310 tenta fundar sua escola filosófica. Enfrenta obstáculos com as correntes filosóficas já existentes, os aristotélicos e os platônicos, que tentaram o impedir de instalar sua escola. Mesmo assim, ele consegue, e já atrai para junto de si seus primeiros seguidores.
No ano de 306, Epicuro inaugura sua escola em Atenas, onde iria tornar-se celebre e seria reconhecida como “O Jardim de Epicuro”, devido ao imenso jardim que cercava a casa-escola. Enquanto na casa habitavam os mestres, os novos discípulos acampavam em barracas e cultivavam hortaliças nos jardins.
Epicuro morre aos 72 anos de idade, em 270 a.C., e seu fiel discípulo Hermarco foi quem o sucedeu na direção da escola.
‘Carta sobre a felicidade’
“Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de faze-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcança-la”.
Epicuro, descreve, depois deste empolgante convite ao filosofar, alguns pontos que na visão dele são fundamentais para vida feliz:
[1] Em relações à qualidade das nossas crenças: “Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que tem dos deuses. Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos da maioria”.
[2] Em relação à qualidade da vida: “Acostuma-te à idéia de que a morte para nós não é nada. O sábio nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é um mal, pois assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve”.
[3] Em relação à escolha dos desejos que serão realizados por nós: “Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo”.
[4] Em relação ao verdadeiro prazer: “De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir. Embora o prazer seja nosso bem primeiro, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas”.
[5] Em relação ao estilo de vida: “Tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil. Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida”.
[6] Em relação às virtudes da temperança e da Prudência: “Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos. Assim, de todas as coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem; é dela que originam todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade”.
E vale a pena ainda lembrar como um último item sobre o caminho da felicidade, o que o poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe, que viveu no século XVIII, escreveu:
“Quem, de três milênios,
Não é capaz de se dar conta
Vive na ignorância, na sombra,
À mercê dos dias, do tempo”.
(do mestre :) Fabio Camilo Biscalchin.

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